Capítulo 7: ILHA DO SOL - COPACABANA - PUNO
Domingo, 14 de Abril de 2002.
Às 7:00h a Delia veio nos acordar e foi ver um barquinho pra gente voltar. Daí tomamos um super chá de 500 ervas e depois fomos para o barquinho, que era igual ao do dia anterior. Fomos junto com uma turma de colegiais bolivianos. Eles foram ouvindo varias musiquetas irritantes de Thalia, música versão latina de “Maionese...” entre outros hits do momento. As águas estavam agitadas até a parte sul e eu estava com pavor de o barco virar. Tudo bem que um dos grandes sonhos da minha vida era conhecer o lago sagrado Titicaca, mas não literalmente a fundo.
Enquanto eu me acabava de medo, o Xineiz permanecia numa posição de meditação. Parecia um Buda. Mal sabia eu que aquela expressão era porque ele estava enjoado com o cheiro da fumaça que saia do motor e o balanço do barco. Uma hora ele foi para a parte descoberta do barco, ao lado do motor e me contou que um dos estudantes veio conversar com ele. O diálogo foi o seguinte:
Menino: - Donde és?
Xineiz: - Do Brasil.
Menino: - Quando chegou?
Xineiz: - Ontem... BLAAARG*!!!
*onomatopéia para vômito
Eu não o vi passar mal, achei que ele estava na maior integração com a natureza. Enquanto isso a Delia falava pra eu ficar tranqüila, lendo a minha expressão de pavor. Eu tinha absoluta certeza que o barquinho ia virar e estava escolhendo que janela eu iria quebrar pra tentar salvar minha vida.
Depois de passarmos próximos à Ilha da Lua (que não conhecemos porque precisava de mais um dia e mais um passeio de barco) o lago ficou mais calmo e eu também.
Após três horas de barquinho e depois de o Xineiz ter deixado caca no Titicaca (não teve graça...), ficamos fazendo hora para pegar ônibus rumo à Puno. Comprei bananas pra repor sódio e o Xineiz ficou pechinchando uma camiseta.
Aproveitamos também pra entrar na igreja de Copacabana pois na chegada não tivemos tempo de conhecer. Muito linda.
Bom, eu perdi muita coisa do que a Delia falou por motivos já mencionados anteriormente. Mas ela falou sobre as plantas locais que apareciam pelo caminho e sobre os costumes dos aldeões da ilha. Contou uma lenda inca que diz que na Ilha do Sol, antes de ser uma ilha, moravam virgens muito bonitas. Frisou bastante que elas eram muuuuito lindas. Elas eram sagradas e nenhum homem podia vê-las. Elas sempre iam buscar água com seus potinhos e de lá voltavam para cima do monte, onde moravam. Um dia alguns homens as seguiram e elas, assustadas, deixaram cair a água no chão e assim nasceu o lago sagrado. Ela também contou outras lendas mas eu não captei por falta de oxigênio no cérebro.
Nos despedimos da Delia e eu fiquei com a impressão de que ela me odiou...
Para atravessar para o Peru passamos de barquinho até a outra margem. O ônibus também foi de balsa! Então passamos pela fronteira e carimbamos os passaportes. Dessa vez sem propinas! IÊÊÊÊÊ!!!IUPY!!!
Ainda bem que avisaram que a gente tinha entrado em outro país porque se não, não daria pra perceber... ë tudo igual, gente feia, casinhas de barro, gente comendo “choclito”com “queso”... O mesmo terrô.
Na hora de preencher os papelitos da imigração, haviam uns incazinhos emprestando canetas, o que eu, muuuuuito besta, achei que era por pura bondade de seus corações. Mas depois eles queriam “plata”, o que eu não tinha porque o Xineiz era o Banco Central e ele não estava no meu raio de alcance. Então eles queriam os meus brincos. Neste momento lancei um “No compreendo” e saí. Quando cheguei no ônibus o Xineiz não só desconhecia o fato que eles cobravam o uso da caneta, como também havia afanado a caneta do incazinho, que por sinal foi a que eu usei pra escrever no diário da viagem.
Mais estrada, chegamos na Rodô de Puno. Lá conhecemos o Peter, um inglês de London que está viajando pela América Latrina há 2 meses. Como teríamos que enrolar 3h esperando o ônibus para Cusco, ele propôs irmos conhecer o centro de Puno. Tomamos um táxi que nos deixou na Plaza de Armas (toda cidade do país tem uma praça de armas, que em geral é o epicentro de tudo). De lá ficamos zanzando nas bocadas e avistamos uma pizzaria com nome engraçado: MACHU PIZZA. Demos umas risadinhas e fomos parar numa outra pizzaria mais bonitinha, porém não guardamos o nome. A pizza estava boa. Acabamos de jantar ainda com tempo para enrolar, daí o Xineiz foi numa Lan House, enquanto eu e o Peter andamos um pouco tentando se entender com meu inglezinho de fundo de quintal e o espanhol mongol dele. Retornamos pra Lan House e eu apressei todo mundo pra irmos de volta à Rodoviária.
Chegando lá ainda havia mais 1h de espera. O tempo não passa naquele pedaço de planeta... Faltando meia hora pra embarcar o Xineiz sentiu falta de sua carteira. Pânico! Ele foi de táxi de volta ao centro para achar o restaurante que não lembrávamos o nome e achamos andando à toa. Eu fiquei com a missão de segurar o ônibus caso o Xineiz demorasse.
Então, faltando 15 minutos para o horário marcado eis que retorna o Xineiz... Como nada acontece por acaso, ele lembrou do Machu Pizza e de lá soube ir até a pizzaria que comemos. O garçon falou que não tinham achado nada. O Xineiz falou que já estava saindo rumo à Lan House quando o garçom falou pra ele dar uma espiada na mesa. Foi a sorte! A carteira estava lá no canto do assento. Viva!!!
Tomamos o ônibus e seguimos viagem. Pra variar a estrada era estreita e de mão dupla. Lá pelo meio da madrugada o motorista deve ter dormido e o carro caiu no acostamento, na beira de uma ribanceira. Para tentar não cair o motorista jogou o carro de volta pra estrada e deu uns três ziguezagues quase tombando o ônibus na estrada. O ônibus inteiro gritava!!! Parecia brinquedo da Disney. A mulher a mulher que sentava ao lado do Xineiz depois do corredor, grodou a mão dela no braço dele, gritando em pânico. Foi bem ridículo, como toda situação limite. Depois ela mesma brincou sobre a cena. O mais engraçado (AGORA é claro) foi que o Xineiz estava dormindo e acordou achando que o ônibus estava descendo de um precipício rumo a um rio, e ele só estava esperando o SPLAAASHHHH. Credo.
O Xineiz acordou com uma malada na cabeça e a câmera de vídeo dele foi parar no pé da mulher ao lado.
O co-piloto apareceu depois falando que o motorista havia desviado de uma “piedra”. Devia di sê uma Stone Henge pra provocar todo esse furdunço.
Só pra completar o style do cenário, o ônibus parava pra toda mão que se estendia pelo caminho. O corredor ficou cheio de gente e só não havia pessoas no teto porque eles ainda não tiveram a idéia de colocar uns poleiros.
Depois do susto o povinho chucro não queria mais que apagassem a luz. Ficou um corinho “Prenda la luz del salon”, “Prenda la luuuuuuz”. Que primitivos... Se querem ficar de olho na estrada a noite, só pode ser com as luzes de dentro do ônibus apagadas. Mas devia ser um resquício de medo do monstro do armário.
Essa foi a pior viagem da minha vida. Além desse quase-acidente, no inicio da viagem um inca vesguinho e com as mãos cheias de verruga virais, ficou cantarolando com uma flauta numa mão e um instrumento tipo castanhola na outra. Tocou aquelas musiquetas típicas que nessas alturas eu já estava de saco cheio de ouvir. Eu e o Xineiz, em vez de ouvir o vesguinho, queríamos dormir, pois já era de noite. Depois de tocar, ele veio pedir moedas e não demos.
Para melhorar colocaram um som SUPER alto dessas musiquinhas. Isso ficou por horas e horas... Mas o povão local gosta desse clima brega. Havendo “choclo” e flauta, eles estão felizes. O Xineiz foi lá pedir pra abaixarem o som, mas a gente se ferrou porque o “comandante” do som era o vesguinho com verrugas ao qual havíamos negado esmola.
Chegamos às 4:30h em Cusco e como eles são legais, o pessoal podia dormir no ônibus até às 6:00h. Suuuuuper confortável.