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Capítulo 5: LA PAZ
Sexta-feira, 12 de Abril de 2002.


Acordei às 7:45h, chamei o Xineiz e depois de prontinhos fomos tomar café. O pessoal estava adiantado e quando chegamos, eles estavam subindo para os quartos. Eu com o trigo, eles com o pão. Daí nós 6 fomos ver algum passeio para ver as ruínas de TIWANAKU.

Conseguimos uma saída para as 11:00h. Matamos o tempo trocando dinheiro e levando as roupas do trem na lavanderia.

A guia chegou. O nome dela era RAEL. No caminho ela foi explicando que a cidade-funil tem estratificações sociais bem determinadas. Na parte mais baixa está a área nobre, na média mora a classe média, e na mais alta, a classe pobre. A Rael era uma mulher muito inteligente que conhecia bem história, muito mais do que só para passar informações a turistas alienados. Ela foi explicando e respondendo as perguntas que foram sendo feitas pelo pessoal.

A Rael nos disse que a Bolívia é um país muito pobre, que vive do cultivo de milho e batata. Portanto é um país essencialmente rural. Sua situação foi agravada pelas perdas territoriais que teve contra todos os seus países vizinhos. Perdeu parte do Mato Grosso pra o Brasil, os charcos para a Argentina, mas a faca nas costas foi a perda da saída para o mar para os chilenos, o que dificulta a exportação e encarece a importação.

Também foi perguntado a ela sobre o estilo de vida do pessoal que a gente vê nos campos quando estávamos pelas estradas. Ela nos contou que as casas que vemos são feitas de tijolos de terra e argila. São melhores do que os de tijolos comuns porque conservam o calor no frio e são frescos no verão. No país a água é pouca, portanto a população rural não toma banho, o que já desconfiávamos pelo nosso olfato.

A Rael também desfez o enigma dos bichos secos. São abortos de lhama. As lhamas perdem os filhotes no inverno e as pessoas catam e vendem. É costume local, ao construir casa ou coisa do tipo, comprar um aborto de lhama e cortar suas patas, enterrando uma pata em cada canto do terreno e a cabeça no centro. Como a lhama é um animal muito forte, segundo a crença isso traz força para as casas... Era mais ou menos isso...

Chegamos em TIWANAKU e fomos almoçar. Tomamos sopa de QUINUA (uma sementinha) e comemos TRUCHA (truta). Estava muito bom!!! Depois de encher a pança fomos até o museu de TIWANAKU, e recebemos mais informações culturais.

Os Tiwanakus iniciaram sua civilização antes dos Incas e mais tarde foram conquistados por estes. Mas os dois povos tinham muito em comum, como o costume de deformar o crânio para diferenciar a classe mais altas. As conseqüências de ser um tiwanaku “chic” eram convulsões e enxaqueca.

No museu havia uma linha de tempo mostrando as divisões e evolução do Império TIWANAKU (ou TIAHUANAKU) em paralelo com a historia européia. Muito interessante, mas não podia filmar ou fotografar, mesmo sem luz ou flash, porque se não o deus do isopor iria ficar preso no filme.

Vimos também esculturas de barro uma delas com rosto de um velho chinês, com bigodinho e chapeuzinho típico e tudo. Isso vem de encontro a uma teoria de que os incas faziam viagens e tiveram contato com Japão e China, e talvez, dada a semelhança física, uma possível descendência.

Depois fizemos umas comprinhas bem “inhas” mesmo e seguimos para dentro do sitio arqueológico. Sem palavras... Muito impressionante.

Haviam esculturas de rostos muito enigmáticas porque não pareciam humanas, pareciam E.T.s!!!

O tempo estava chove não molha, mas a Rael ensinou que as pessoas nascidas nos meses de inverno podem soprar (literalmente) a chuva. Parece que deu certo porque as nuvenzinhas cinzas ficaram lá na montanha.

E bem na hora de conhecer a famosa PORTA DO SOL acaba o filme da maquina e eu não tinha lembrado de trazer outro. Beleeeeeeza! Mas o Xineiz filmou para provar para todos que realmente estávamos lá.

Antes de irmos embora, o Marcelo pediu pra parar numa outra parte do sitio, esta bem mais destruída pelos espanhóis. Aliás, falando em espanhóis, a Rael contou que quando ela começa a contar que tudo de desgraça que aconteceu com a cultura e economia local é culpa dos espanhóis, os turistas de lá falam que são da Cataluña. Rêrê...

O Xineiz tá aqui lembrando que lá no museu havia cerâmica vitrificada, para o que era preciso fornos que alcançassem 1800 graus Celsius. E detalhe: para alcançar essa temperatura eles usavam cocô de lhama!!!

Eles enterravam seus mortos na posição fetal, dentro de uma bolsa tecida em palha (ou coisa que o valha) que não cobria o rosto, e o enterravam. Isto representava uma nova gestação, sendo que este novo “feto” era gerado na PACHAMAMA (Mãe Natureza/Mãe Terra) para dali renascer em outro mundo. Bonitchu, não?

O Xineiz também tá lembrando que a Rael nos contou que se sabe que os Tiwanakus conheciam a roda, pois faziam vasos e outros objetos circulares, como os "observatórios" astronômicos (espelhos d’água circulares), contudo não o utilizavam porque isso seria afronta ao Deus Sol, que é uma roda.

Detalhando um pouco mais sobre os crânios deformados, lá no museu haviam vários de várias formas. Em geral buscava-se uma forma “cônicos e cômicos”. Eles iniciavam a deformação desde bebê e este carinha seria o novo playboy tiwanaku, no topo da pirâmide social.

Também praticavam a imolação de crânios. Isso era tão importante que tem até um deus exclusivo para o ritual.

Algumas esculturas tinham o que parece MUITO ser barba. Porém esse povo, assim como os índios brasileiros, são imberbes (“não sei se você sabe”, mas isso significa que não tem pêlos). Isto representa mais um pontinho para a hipótese de contato com outros povos no placar das investigações históricas. Esse contato se daria através de navegações. A Rael falou que já reconstruíram uma embarcação da época e conseguiram chegar no Japão.

Sobre a civilização Tiwanaku aprendemos ainda que ela foi dividida em 4 fases, sendo que no apogeu dominavam a cerâmica, o uso de três cores e o cultivo da batata, quando chegaram a cultivar 186 espécies diferentes de batata, com um sistema de irrigação que tinha uma produtividade absurda (não me lembro o número). E desse 186 tipos de “papas” hoje existem ainda 25%. Eles também sabiam a técnica de fazer ouro laminado. Aliás, ouro estava em todo lugar. Para os espanhóis foi o máximo. O que era de pedra eles consideraram sacrilégio e demoníaco e destruíram, mas o ouro do “demônio” eles podiam pegar, né? Malandrões.

Voltando ao passeio, a Porta do Sol não esta mais no seu lugar original. Na verdade ela ocupava um local central no pátio. Assim, no solstício de inverno, dia 21 de junho, os raios do sol passavam sobre a porta, exatamente na sua inscrição central, e marcavam o inicio do Ano Novo AIMARA.

Na verdade todo o templo era um grande calendário, para que controlassem o plantio e as colheitas. E a cada novo período ocorriam festas e cultos religiosos ali.

Numa das paredes laterais do templo existe um orifício na forma de ouvido médio humano. Se alguém falar do centro do templo, a pessoa que estiver com seu ouvido rente ao orifício escutará a outra pessoa perfeitamente. E de maneira contrária, se alguém falar (em tom normal) desse orifício, as pessoas no centro do templo podem escutá-lo alto e claro. Fizemos o teste e deu certo!!!!

Na volta paramos no MAYA TOURS e nos despedimos da Rael. O pessoal ficou num impasse entre ir para Copacabana (sim, lá também tem a sua...) ou ficar mais um dia para ir à estação de esqui e Vale da Lua. Quando soubemos que a estação de esqui estava fechada, eu e o Xineiz resolvemos seguir para Copacabana. O pessoal decidiu ir assim mesmo.

Depois,já de noite, o Xineiz foi comprar uma jaqueta que não tirou mais e todo mundo foi jantar pizza no centro de La Paz. Não lembramos o nome da pizzaria, mas estava bom.

Então andamos pelo centro e o Marcelo e o César queriam continuar a boquinha num McDonald’s (essa coisa está em todos os lugares). Mas a fila pra comprar era absurdamente kilométrica. Achamos até que tinha um show por ali, ou coisa que o valha. Aí, nos contentamos com um sorvetinho. O pessoal ainda foi no cinema, mas eu e o Xineiz resolvemos ir para o hotel. Deixamos nossos e-mails para eles e fomos dormir.


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