Capítulo 3: SANTA CRUZ – LA PAZ
Quarta-feira, 10 de Abril de 2002.
Os brasileiros nem tchum pra nóis... E uma delas quase amputou minha perna quando foi abaixar o seu banco. Mas “faiz parte”.
A fome faz cada coisa... Comemos um franguito suspeito com arroz bege, farofa passada e batata frita murcha, e de quebra devoramos a sobremesa que consistia em gosma branca coberta por meleca rosa. E o Xineiz sonhou que eles estavam servindo uma coca (cola, por favor) geladinha, quando na verdade era um café quente pra acompanhar o calor de rachar côco.
O vagão tinha vídeo e passaram Inteligência Artificial (bom) e Pecado Original (cocô), que foi cortado no final sem explicações.
Durante o caminho nossas roupas de brancas ficaram marrons e sem contar a camada de poeira na pele. Ui, ui, ui.
Eu não acreditei quando ouvi os primeiros acordes de um cara roncando atrás da gente. Agora to achando que é karma... Nem com os solavancos absurdos do trem o cara acordava.
De madrugada, com o vagão todo no escuro e somente o barulho do trem, iniciamos os Contos da Cripta, que incluiu várias histórias hipnagógicas e o já clássico conto do Homem do Margúio, realmente muito assustador.
E muitas figuras ficarão na memória, como o misterioso “Mulder Depardier” (devido à napa), que não parava de andar pra lá e pra cá, não estava com ninguém, mas estava com todos ao mesmo tempo...E também o “Seu Madruga”, que nos ajudou a trocar as passagens PULMA por BRACHA, que era mais confortável e teria ventilador (mas eles ficaram regulando a micharia).
Chegando em Santa Cruz, ficamos enrolando na Rodô. Almoçamos queijo frito e hambúrguer (hamburguesa, como dizem pelo resto da América Latina) e não passamos mal. Êêêêêê!!! Daí, depois o Xineiz achou uma Lan House baratinha e então nos distraímos por 1h. Mas o tempo não passava e ficamos um tempão sentados à toa. Aí vimos uma guria que o Xineiz achou que queria ser “adotada” pela gente, mas a abandonamos sem querer. Vimos também, dos milhões de israelenses, o mais esquisito deles, com camiseta regata do Timbalada laranja fosforesceste e um naipe muito desengonçado.
Depois de umas 50h psicológicas, finalmente fomos embarcar no ônibus e então vem toda galera: os 4 brasileiros do trem, o israelense esquisito e a menina da adoção. Eu perguntei para a menina de onde ela era e a resposta foi Peru. Bom, nem fizemos amizade porque pintou um clima entre ela e o israelense. O ônibus era pra ser bom, porque era da classe executiva, marca Marcopolo e tal, só que era todo calejado pelo tempo, sujo, uma beleza. Mas fomos embora.
Os brasileiros falaram que num hotelzinho por ali pra tomar banho por B$1,00 cada e foram numa churrascaria. E eu e o Xineiz continuávamos porcos e imundos e comemos lanche, mas “faiz parte”.
A charanga não andou nem 10min e parou num restaurante muito porco e ficou por lá mais de 1h!!! A budega do restaurante tinha uma parede quebrada que dava para um quintal infinito. No caminho pro banheiro andava-se muito, passando por fogueiras e carros depenados pelo caminho... Surreal. Mas essa parada de 1h não foi nada porque foi só sair de lá que o ônibus ficou com problemas na marcha e andava a 5km/h até quebrar de vez. E das 8:00 da noite, só foi resolvido praticamente 3 da matina. Durante esse tempo, enquanto os bolivas soldavam mil coisas, eu e o Xineiz ficamos conversando com o Marcelo, um dos brasileiros. E ele é super amigo de um prudentino, Daniel Menin, que estudou no Esqueminha, escola de gente feliz, comigo. Óia que coisa... O Marcelo é espeleólogo e trambica carros por aí. Também ficamos observando o cortejo do israelense com a peruana. Ele dançou capoeira pra ela, tirou fotos com uma super câmera, era risadinha pra lá, risadinha pra cá, mas nada de chegar na xinxa. E a peruana olhando que nem uma vampira seca. Tolinho...
Nessa altura da viagem já estávamos super acostumados com a moda secular local. Povo aqui pensa que é bonito ser feio. A mulher tem que ter uma cara de macho com tranças longas, ancas gigantescas pra dar volume na saia de várias camadas de babados. Pra completar o look, um chapelinho tipo Carlitos uns três números menores que a cabeça, pra ficar bem no topo messsss. Ah! E falta a mantilha listrada bem colorida pra carregar “choclo” (milho) fedido ou um bebê. Vários desses tipinhos circulam por todos os lados e estão em todos os lugares...
Voltando ao ônibus, afinal consertaram mais ou menos e seguimos avante.